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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sufoco em Paris


Estava certa de encontrar as minhas amigas Dulce e Magali em Roma, num dia de agosto que já não me lembro mais. Para não nos perdermos, eu fiquei de encontrá-las no aeroporto. A viagem de Edimburgo para Roma não tinha sido fácil. Saí de Edimburgo, aos prantos, à meia-noite, e cheguei em Londres por volta das 7 e meia da manhã. De Londres, peguei um ônibus para Dover. Em Dover, um barco para atravessar o Canal da Mancha e chegar a Calais, na França. Em Calais, um trem para Paris. Cheguei às 11 e meia da noite e comecei a vagar pela estação em busca de informação. Mas, o guichê estava fechado. Eu deveria pegar outro trem para Roma na Gare de Lyon e eu estava na Gare du Nord, precisando trocar meus cheques de viagem para comprar o ticket de metrô. Mas, onde? Tudo fechado.

A cara de boba, claro, atraiu dois sabidos. O primeiro chegou insistindo para carregar a minha mala. Só tem cavalheiro, nesse lado do planeta? Em seguida, o outro, brigando para tomar a mala do primeiro. Mais uma vez, achei tudo muito estranho e, nesse momento, avistei um casal que estava vindo comigo desde Londres. Fui até eles e rapidamente contei o que se passava. Pedi para ficar com os dois. Mas, se precisasse, teria implorado. Eu estava apavorada. O inglês foi um cavalheiro e botou os “franceses” pra correr e juntos, fomos para a Gare de Lyon. Como os guichês estavam fechados, lá fomos nós 3, com apenas 1 ticket que a inglesa encontrou na bolsa, nos arriscando. Se alguém pegasse, iríamos todos parar numa delegacia.

Chegando à estação, a mesma coisa: nenhuma informação, câmbio fechado, nada para comer. Só uma certeza: era dali que o trem para Roma sairia. Meus novos amigos estavam indo para Nice, também ao sul. Resolvemos, então, sentar num canto e, ali mesmo, passar a noite, já que ninguém tinha como trocar dinheiro, impossibilitando a ida para um hotel ou comer alguma coisa. Estávamos muito bem, já conformados com as acomodações, quando uma funcionária da estação chegou e, "delicadamente", começou a empurrar nossa bagagem com uma vassoura. Na época, o que eu sabia de francês era, apenas, chez moi, Charles Aznavour e pas de deux. A mulher disparou a falar e a inglesa a arregalar os olhos. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Por fim, ela traduziu pra mim e o namorado: a estação vai fechar. Devidamente enxotados pela funcionária, a solução foi atravessar a rua e tentar se hospedar num hotel em frente, bem vagabundo. Chegando lá, expliquei ao recepcionista a nossa situação e jurei por Deus que, no dia seguinte, pagaríamos o hotel. Ele aceitou a minha explicação, mas ficou com os nossos passaportes. Subimos 3 lances de escada para chegar aos nossos “quartos”. Tomei um banho e me deitei. Estava exausta, mas passei boa parte da noite observando a porta do quarto. Ela não fechava direito e dava para ver quando alguém passava no corredor. As cortinas deviam ter 500 anos, eram velhas e pesadas. Imaginei a população de ácaros e como eles deveriam ser felizes ali, naquele paraíso. Num canto do quarto, uma pia horrenda, e no outro, o banheiro, construído atabalhoadamente. O piso rangia quando era pisado, parecia um gemido. E o que é pior: eu ouvia o rangido dos outros quartos. Quem me conhece sabe o quanto isso é capaz de me assustar. Pela terceira vez na viagem, chorei. E me perguntei o que eu estava fazendo ali. E assim, dormi, ou melhor, desmaiei.